//

TIAGO BAPTISTA

13/09/2014 - 05/10/2014

 

folha de montra

 

 

 

“Eis bastante e mais do que é necessário sobre a pintura. Seria conveniente associar-lhe a modelação. Também utilizando a terra. O oleiro Butades de Sícion foi o primeiro a descobrir a arte de modelar retratos em argila; isto passou-se em Corinto devendo a sua invenção à sua filha, que se tinha enamorado de um jovem [quae capta amore iuuenis]; estando este de partida para o estrangeiro, ela circunscreveu [circumscripsit] com uma linha a sombra do seu rosto projectada na parede pela luz de uma lanterna [lucernam]; o seu pai aplicou argila sobre o esboço, fazendo um relevo que pôs a endurecer ao fogo como resto das suas cerâmicas, depois de o ter secado; esta obra, diz-se, foi conservada no Nymphaeum até à época do saque de Corinto por Múmio.”*

 

*Plínio, O Velho, História Natural, livro XXXV, tradução de Tomás Maia, in Assombra, Assírio & Alvim, 2009

 

 

 

Podemos começar por Plínio, e a lenda da origem da pintura, mas é apenas o começo e não existe lugar de chegada definido. Começo por Plínio, porque me tem acompanhado, mas deixo o caminho aberto. É uma leitura à qual volto sempre e cada vez que a releio ou a recordo surgem novas imagens, sempre de maneira diferente. É uma leitura fecunda. De onde surgem imagens. Se na banda desenhada antes apresentada, a rapariga imprime o perfil do jovem no próprio barro, negligenciando as etapas do desenho e do preenchimento com argila da inscrição na parede, no trabalho apresentado n’A Montra, o barro foi previamente aplicado como plano de projecção, e o desenho existe enquanto luz, nunca se inscreve, não há linha que risca a superfície. É um desenho quase fantasmático, porque o desenho da sombra não se materializa, não há fricção do material riscador contra a superfície, este desenho, esta imagem é feita pela ilusão da luz nos nossos olhos. Não se agarra, não se palpa. Quase espectral. A pintura aqui, enquanto plano opaco não é convocada, é antes um plano translucido onde se projecta o desenho, que também não é inscrição porque é luz e sombra que formam uma imagem ciclicamente encerrada em si. Indício da imagem perpetuada. A filha de Butades, querendo perpetuar a presença do jovem (ausência do corpo), recorreu à criação de uma imagem (presença da projecção). A imagem, as imagens, transformam o ausente em presente.

A sombra está presente em muitos trabalhos de pintura e desenho meus, mas apenas enquanto representação. Este é o passo para que a sombra e a luz existam autonomamente e fora de uma tentativa de mimetizar numa reprodução pictórica a sua condição. Se volto com frequência a Plínio e a esta história não é com o intuito de ilustrar o texto mas, para a partir dele dar à luz novas imagens que se centram nessa dicotomia ausência/presença, que é talvez a essência das imagens, porque elas rememoram, sugestionam, acalentam e também aterrorizam. Deliberadamente omitindo e alterando os gestos descritos por Plínio, na banda desenhada a modelação não é feita a partir da luz, mas do contacto com a matéria (barro); no trabalho que aqui se apresenta n’A Montra o desenho não é inscrição, é luz.

 

PT | EN

© A MONTRA 2013