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VASCO FUTSCHER

05/12/2015 - 17/01/2015

 

folha de montra

 

 

 

Quem olha para a Montra está limitado na observação que pode fazer da obra pelo vidro, que planifica o espaço e o torna quase bidimensional.  Partindo de uma familia de objectos que tem vindo a desenvolver, os pedestais, Vasco Futscher mostra aqui uma base concebida para este cenário. À primeira vista, parece apenas isso, um pedestal de desenho austero, em grés negro e vermelho. Observando melhor, parece-nos dotado de uma perspectiva estranha, como se estivesse torto. Fazendo uso de regras conhecidas dos arquitectos barrocos, engana o nosso olho, que tenta em vão endireitar a peça.

 

 

 

 

Coda

 

A coda continua. A cauda continua. Uma linha recta, mesmo se não visível, continua sempre.

 

A perspetiva - uma linha recta também - também continua mas às vezes não para onde acharíamos que ela vai.

 

No entanto, ao olhar ao longo dessa linha recta, para o ponto de fuga, nós próprios somos um ponto dessa linha.

 

A cada momento somos um ponto no tempo e no espaço da vida, que tanto pode ser vista como uma linha, como não (um círculo, uma capicua, uma montanha russa, uma salada russa, um acordo franco-russo, um bolo de noiva, um ziggurat, um gráfico do Nasdaq, do FTSE100, do Dow Jones).

 

Mas essa linha (ou não, mas aqui pouco importa se o é ou não) tem sempre o mesmo ponto final (que neste caso não é um ponto de fuga): um mausoléu, ou algo parecido, talvez em dimensões mais pequenas. Quem já esteve no mausoléu do Lenine saberá que nem todos os mausoléus são iguais (alguns mais iguais do que os outros), as cores mudam, as dimensões também, os conteúdos então…mas aquele é mesmo o Lenine? Parece estar a transpirar. Parece ser feito de cera. Se aquele é mesmo o Lenine também pouco importa. Uma coisa é certa, a morta é certa, o futuro é que não.

 

A coda continua mas é também a fase final. A Montra acaba. Vasco Futscher continua o que A Montra esteve a fazer durante estes últimos dois anos, mas, ao mesmo tempo, também fecha esta fase. Uma fase que fecha uma fase. E depois?

 

E agora?

 

A perspetiva é uma coisa engraçada: ao longe as coisas parecem muito pequeninas, e de perto maiores, ou então mesmo da dimensão de que elas são. Ou talvez maiores até do que isto, pelo menos em comparação. É relativo.

 

Esta alteração de distância e de escala pode causar inquietação: o que está longe não me concerne, não me incomoda, não me ameaça, mas uma vez que - sem dar por ela - chega perto…questão de perspetiva, uma vez mais.

 

A obra que Vasco criou para esta despedida (se é que o é) de A Montra é também sobre perspetiva e inquietação, aquela inquietação do reconhecer e não reconhecer. De saber que ha alguma coisa de ligeiramente errado com a nossa perspetiva, mas não saber exactamente o quê, também porque, além da nossa própria perspetiva (daquela mesmo visual) não podemos ter outra.

 

Andamos em volta da questão sem encontrar solução, viramo-nos de um lado e do outro na cama sem conseguir quietude. Mas também (e como sempre) é questão de contexto, de enquadramento. Não vou conseguir ver aquele objeto, por detrás daquele outro, na televisão, mudando de posição.

 

Por sua vez, o trabalho de Vasco parece ser sempre revelador, de estruturas, dos fundamentos que as formam, e da sua fragilidade, nesta nossa soi-disant velha Europa.

 

Mas há lugares mais velhos.

Como assim? O mundo não foi todo criado ao mesmo tempo?

 

E, além disso, o passado é um país estrangeiro, tanto aqui como ali. O que importa mesmo é o presente. Pelo menos esse conseguimos ver relativamente claramente (mesmo se não necessariamente o entendemos). O futuro ainda não existe, mas diz-se que antes se conseguia prever melhor. Ou talvez o futuro sempre foi um altar, onde se venera algo que ainda não existe, tentando seguir uma linha que, inquietantemente, não sabemos para onde vai.

Neste mesmo altar, em nome de um futuro áureo, fazemos sacrifícios ignóbeis. Bodes expiatórios. Mas o que precisamos é de uma ave, daquelas que ardem e depois ressurgem. Mas parece não haver fénices em vista, ou talvez as fénices são como as linhas: elas estão lá, mesmo se não se vêem. Visão esperançosa? Talvez. É questão de perspetiva.

 

 

Eva Oddo

 

Dezembro, 2015

 

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